Canto da Sereia

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Na mitologia grega, as sereias são seres metade mulher e metade peixe capazes de atrair e encantar qualquer um que ouvisse o canto. Viviam em uma ilha do Mediterrâneo, em algum lugar do Mar Tirreno cercada de rochas e recifes ou nos rochedos entre a ilha de Capri e a Costa da Itália
A sedução provocada pelas sereias era através do canto. Os marinheiros que eram atraídos pelo seu canto e se aproximavam para ouvir seu belíssimo som, descuidavam-se e naufragavam. Em nossos dias, utilizamos a expressão “canto da sereia” para designar algo que tem grande atração em que as pessoas caem sem resistência.
Eu noto que o “canto da sereia” está em todas dimensões da vida social. Principalmente nas redes sociais. As redes sociais criam, recriam, distorcem, transformam pessoas, fatos, histórias e situações.
A psicóloga Beatriz Neves foi acusada – injustamente – no Facebook de pisotear uma gata velha e cega no playground de um condomínio em Copacabana.
A mensagem se propagou com a velocidade típica da internet. Em um intervalo de apenas dez dias, Beatriz contabilizou cerca de mil manifestações no Facebook, a maior parte de uma violência incomum. “Mata de porrada. Diz o endereço que eu mesmo mato”, escreveu uma pessoa. Maldita, desgraçada! Gente como essa não morre em assalto, atropelada, com bala perdida, disse outra. Nas postagens, expressões como vadia, monstro, demente e imbecil tornaram-se corriqueiras. Beatriz afirmou: “Fiquei arrasada. Percebi que em questão de segundos sua vida pode ser destruída”.
Todos os anos, milhares de pessoas são alvo desse tipo de ação ignominiosa. O fenômeno, chamado de trollagem, é praticado por dois tipos de personagens: os haters e os trolls.
Os haters, ou odiadores, seriam mais parecidos com metralhadoras giratórias que disparam contra qualquer coisa de que não gosta. O ataque, feito em tom inflamado, visa a ridicularizar os alvos e seus pontos de vista. Os “trolls” são diferentes: fazem provocações e afirmações polêmicas para criar dissensão nas redes sociais. A palavra remete aos seres disformes da mitologia nórdica, mas a expressão teria outra origem: pescar com isca, em inglês. A isca é a provocação: o peixe, a confusão. Como para qualquer pescador, quanto maior o peixe, melhor.
Confesso que esse é um dos perigos de nosso tempo. As redes sociais estão carregadas do discurso de ódio e intolerância sobre temas que vão de futebol e novela até economia, política e religião. Lemos loucuras, sandices e patetices “incríveis”.
Vivemos a era da estupidez humana ou da fraqueza humana. Eu chamo de esnobismo ao vício que consiste em fingir admirar o que de fato não se admira nem se compreende.
Temo que nossa civilização esteja criando “crianças perenes”. Somos criados na expectativa de que tudo é possível, perdemos o sentido do impossível e começamos a tocar e acreditar em coisas que desconhecemos. Assim, o “homem civilizado” que vive na euforia de “tudo é possível” não se comporta de modo diferente da criança: destrói e estraga tudo. Por que justamente não tem ainda a noção do que pode fazer (e do que não pode) com os objetos que a cercam.
É um processo de infantilismo histórico. O risco disso tudo é que cada vez mais ouvimos –sem reflexão e consciência crítica – os diversos cantos da sereia.
Por fim, registro uma história formidável: os jornais ingleses publicaram a história do concerto silencioso anunciado, com grandes alardes de publicidade, por um pianista desconhecido. Chegando o dia do concerto, a sala está lotada. O virtuoso do silêncio senta-se diante do teclado e parece tocar, mas todas as cordas tinham sido retiradas e os martelos não produziam qualquer som. Os espectadores olham os seus vizinhos pelo canto do olho, e ver se hão-de protestar. Uma vez que os vizinhos permanecem impassíveis, todo o auditório, paciente, fica imóvel. Após duas horas de silêncio, o concerto termina. O pianista levanta-se e cumprimenta. Acolhem-no aplausos calorosos. No dia seguinte, na televisão o músico silencioso conta a história e conclui: “Quis ver até onde ia a estupidez humana, não tem limites”.
Autor José Renato Ferraz da Silveira